10 de julho de 2026

Multiverso

 



Quando te conheci, disse-te que num mundo paralelo estaríamos juntos,

talvez por saber que aqui teríamos pendentes outros assuntos.

Mas, por um breve momento, vivi nessa dimensão,

na esperança ingénua de silenciar a nossa conexão. 

 

Vou fazer-te uma descrição para que viajes comigo.

Fecha os olhos enquanto sussurro ao teu ouvido.

Imagina a minha voz suave e calma

(ainda te lembras dela?)

e que, entre olhares, nos cruzemos alma com alma.

 

Está calor. O sol entra pela janela.

Eu abro os olhos com cautela.

Os lençóis são brancos. O quarto, sublime.

O meu perfume em cada canto se imprime.

 

Mistura-se com o teu, como se até os cheiros

recusassem aprender o peso do adeus.

Acordo primeiro. Não porque queira, mas porque tenho medo.

Medo de perder um único segundo deste segredo.

 

Guardo essa noite na memória,

sabendo que fará para sempre parte da nossa história.

Observo-te. Ainda dormes.

E o silêncio veste-se de tons uniformes.

 

Aprecio cada detalhe como quem contempla uma obra de arte

e peço ao destino que, desta vez, não me deixe de parte.

O teu cheiro continua a ser o meu favorito,

como se amar-te fosse um delito.

O lençol está caído,

guardando o desenho do teu corpo adormecido.

As chaves e o relógio repousam na mesa.

(O tempo, pela primeira vez, decidiu esperar).

O teu peito sobe e desce com leveza.

(Lá fora, o mundo insiste em continuar).

 

Há sentimentos que não sei descrever.

As partículas de pó dançam na luz do amanhecer.

E, lentamente, abres os olhos.

Encontras-me a olhar para ti, guardando cada detalhe em pensamentos.

(Há olhares capazes de durar mais que uma vida).

 

Nesse mundo, há coisas que permanecem iguais.

Os teus olhos continuam a ser especiais.

Os mais bonitos que já vi.

(O lugar mais bonito em que já estive).

Olhas para mim. Sorris.

 

E pela primeira vez o mundo parece suficiente.

Diz-me…

Posso ficar nesse universo onde nos escolhemos um ao outro,

 e ficamos juntos eternamente?

 

Porque eu continuo a escolher-te,

mesmo sabendo que este universo nunca foi nosso.

Às vezes pergunto-me se todas as versões de nós acabam por se perder.

Ou se existe apenas uma, algures, em que não tivemos de esquecer.

 

Será que existiu alguma em que não houve despedidas, nem tempo errado?

Ou vidas desencontradas, em que estamos lado a lado?

Uma versão em que acordamos assim, todos os dias.

Se essa versão de mim existe…

Espero que, de vez em quando, olhe para o céu

e sinta uma saudade inexplicável.

 

Talvez seja a minha.

 

Talvez,

 noutro universo,

 eu também esteja a pensar nela.

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