Quando te conheci, disse-te que
num mundo paralelo estaríamos juntos,
talvez por saber que aqui
teríamos pendentes outros assuntos.
Mas, por um breve momento, vivi
nessa dimensão,
na esperança ingénua de
silenciar a nossa conexão.
Vou fazer-te uma descrição para
que viajes comigo.
Fecha os olhos enquanto sussurro
ao teu ouvido.
Imagina a minha voz suave e
calma
(ainda te lembras dela?)
e que, entre olhares, nos
cruzemos alma com alma.
Está calor. O sol entra pela
janela.
Eu abro os olhos com cautela.
Os lençóis são brancos. O quarto,
sublime.
O meu perfume em cada canto se
imprime.
Mistura-se com o teu, como se
até os cheiros
recusassem aprender o peso do
adeus.
Acordo primeiro. Não porque
queira, mas porque tenho medo.
Medo de perder um único segundo
deste segredo.
Guardo essa noite na memória,
sabendo que fará para sempre parte
da nossa história.
Observo-te. Ainda dormes.
E o silêncio veste-se de tons
uniformes.
Aprecio cada detalhe como quem
contempla uma obra de arte
e peço ao destino que, desta
vez, não me deixe de parte.
O teu cheiro continua a ser o
meu favorito,
como se amar-te fosse um delito.
O lençol está caído,
guardando o desenho do teu corpo
adormecido.
As chaves e o relógio repousam
na mesa.
(O tempo, pela primeira vez,
decidiu esperar).
O teu peito sobe e desce com
leveza.
(Lá fora, o mundo insiste em
continuar).
Há sentimentos que não sei
descrever.
As partículas de pó dançam na
luz do amanhecer.
E, lentamente, abres os olhos.
Encontras-me a olhar para ti, guardando
cada detalhe em pensamentos.
(Há olhares capazes de durar
mais que uma vida).
Nesse mundo, há coisas que
permanecem iguais.
Os teus olhos continuam a ser especiais.
Os mais bonitos que já vi.
(O lugar mais bonito em que já
estive).
Olhas para mim. Sorris.
E pela primeira vez o mundo
parece suficiente.
Diz-me…
Posso ficar nesse universo onde
nos escolhemos um ao outro,
e ficamos juntos eternamente?
Porque eu continuo a
escolher-te,
mesmo sabendo que este universo
nunca foi nosso.
Às vezes pergunto-me se todas as
versões de nós acabam por se perder.
Ou se existe apenas uma,
algures, em que não tivemos de esquecer.
Será que existiu alguma em que
não houve despedidas, nem tempo errado?
Ou vidas desencontradas, em que
estamos lado a lado?
Uma versão em que acordamos
assim, todos os dias.
Se essa versão de mim existe…
Espero que, de vez em quando,
olhe para o céu
e sinta uma saudade
inexplicável.
Talvez seja a minha.
Talvez,
noutro universo,
eu também esteja a pensar nela.

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