Tive
alguma dificuldade em entender a minha irmãzinha de nove anos e todos os seus
protestos acerca de determinados assuntos. Hoje, consigo entendê-la
na perfeição. Devia ser ao contrário: eu a ensinar-lhe alguma coisa nova, ser um bom irmão mais velho, um exemplo a seguir. Mas, nesta situação, foi ela quem me ensinou.
Há uns meses, mudou-se para a casa ao lado um
senhor com os seus 65 anos. Nada de novo, pensava eu, quantas vezes não vemos
pessoas a mudar de casa? Sinceramente nem tinha reparado nele, nem eu, nem a
minha mãe. A minha irmã, por outro lado, reparou naquele velhote solitário, na tristeza e mágoa nos seus olhos, na amargura quando falava, e, finalmente, percebeu que ninguém o visitara uma única vez. Podia ser um velhote triste, mas esforçava-se sempre para sorrir, era muito simpático e educado.
Tudo começou quando
a minha irmã ganhou empatia pelo senhor. Gostava de ir para o quintal brincar só para observá-lo. Ela nunca tentara aproximar-se dele, pois a minha mãe fê-la
prometer que nunca iria aproximar-se de um estranho.
Até
que um dia ela decidiu falar no assunto. Estávamos todos sentados à mesa,
faltava precisamente um mês para o Natal. Disse-nos que tinha observado o seu
futuro amigo todos aqueles meses e que o queria ajudá-lo, porque sabia que ele estava sozinho e que passaria o Natal sem companhia. A minha mãe desviou o assunto, dizendo que iria pensar numa alternativa para o ajudar, sempre teve muito medo de estranhos. A minha irmã, que sabia que quando a mãe dizia isso o assunto nunca mais voltava à tona, começou a chorar.
O
meu pai pegou-lhe ao colo e prometeu-lhe que iria ter uma conversa com a minha
mãe e que iriam decidir o que fazer. Na altura, pensei que fosse uma birra
habitual, algo que acontece a todas as crianças, mas hoje vejo que não.
Mais tarde, ela bateu à minha porta para me pedir apoio e convencer os nossos pais a ajudar o vizinho. Perguntei-lhe por que tanta urgência, por que tanta compaixão por alguém que não conhecia. Foi nesse momento que ela me surpreendeu e me ensinou uma grande lição. Disse-me que não devemos apenas ter amor e compaixão pelos membros da nossa família e amigos; as outras pessoas também têm sentimentos e merecem ser amadas e respeitadas, merecem sorrir, ter amigos, ter alguém com quem partilhar a sua felicidade, o natal, as prendas, o amor, a entre ajuda, o respeito.
Disse-me
ainda que devemos pôr-nos no lugar dos outros, porque nunca se sabe quando
seremos nós naquela situação, ou em situações ainda piores. Fiquei de boca
aberta e perguntei-lhe ainda como é que ela tinha chegado a todas aquelas
conclusões sozinha, e ela disse-me:
- Mano, não cheguei a nada sozinha. Cá em casa, todos vocês sempre me ensinaram que devemos ajudar os outros para tornar o mundo melhor. Pena é que não o ponham isso em prática. Não podemos dizer aos outros o que fazer se nós próprios o fizermos! Por favor, ajuda-me a tornar o sorriso daquele senhor verdadeiro. Gostava muito que ele pudesse passar o Natal connosco. Sei que ele gosta muito de flores, podemos fazer-lhe um jardim no quintal e ir buscar um cão ao canil para lhe fazer companhia. O que achas?
Fiquei sem palavras. A minha irmãzinha ensinou-me uma lição que todos devemos ter em mente. Prometi-lhe que iríamos realizar o seu sonho e fui falar com os nossos pais, contando-lhes toda a conversa.
Hoje, dia de Natal, não podia estar mais feliz. Tenho a família toda reunida
cá em casa, temos um novo amigo, o senhor João (o nosso vizinho), e a minha irmã sorri como nunca a tinha visto sorrir.
Ao senhor João, oferecemos o cão e as flores e plantas para fazer o jardim, e agora ele sorri genuinamente. A minha
irmã não podia estar mais contente; diz que tornar este sonho realidade foi a melhor prenda de Natal que poderia ter.
Percebi, então, que o melhor da vida está em quem nos faz
bem, no coração e na forma como vemos e interpretamos as coisas. Aprendi também que não são só os mais velhos que nos podem ensinar algo valioso, as crianças também têm muito a oferecer, principalmente bondade, e devem ser sempre ouvidas.
Carolina
Figueiras

O texto que escreveste diz o que nós aprendemos em teoria, mas quase nunca ou nunca colocamos em prática. Cada vez escreves melhor!! ❤
ResponderExcluirMuito bom, parabéns.
ResponderExcluirVou continuar a seguir o teu blog.
Muito obrigada Alexya, é bem verdade. Obrigada pelo teu apoio é muito importante para mim!
ResponderExcluirObrigada!!
ResponderExcluirA personalidade consolida pela experiência e interação com o meio!
ResponderExcluirVerifico, mais do que nunca, existirem realidades muito semelhantes que por comodismo ignoramos! Todos sabemos com probabilidade que um dia poderá ser esta a nossa própria história!...
Parabéns pela coragem, sensibilidade e determinação aqui expressas.
Obrigada pelo apoio.
ExcluirAinda bem que gostas-te!
Espero continuar sempre a escrever algo que gostes de ler!