6 de maio de 2016

Carta

Querido diário,



                                                                  Quarteira, 24 de junho de 2016


No outro dia, mudou-se para o meu prédio um casal. Aparentemente, um casal simples e simpático. Ela, alta, bonita, loira, com uns grandes olhos azuis. Ele, magro, esguio, com um sorriso desmedido. Tinham dois filhos e vinham do norte do país. 
A sua simpatia, a mim, parecia-me excessiva; todos aqueles sorrisos e palavras bonitas eram apenas uma máscara para que a realidade não transpareça. Nenhuma família vive num conto de fadas onde o arco-íris, e unicórnios são peças fulcrais do dia a dia. 

Hoje, depois da escola, quando cheguei a casa, ouvi gritos no andar de cima, na casa do tal casal. A princípio não liguei, fui lanchar enquanto ouvia música. De repente, o meu irmão mais novo veio ter comigo muito assustado e a chorar. Desliguei a música e pusemo-nos à escuta. Os gritos eram de uma mulher, horríveis e aterrorizadores, senti uma angústia tão grande que decidi ir confirmar. 

Subi as escadas e bati à porta. O silêncio percorria as escadas e todo o prédio, nunca eu tinha gostado tanto do doce sabor do silêncio. Demoraram mais de um minuto a abrir a porta. Do outro lado estava um homem a trabalhar no computador, os filhos sentados à mesa a estudar, e a mulher, que era quem segurava a porta, sorria para mim, como sempre. Todos me cumprimentaram e eu tive de arranjar uma rápida desculpa: disse que precisava de batatas para fazer o jantar (desculpa um bocado parva, eu sei, sendo que ainda eram 16:00h, mas não consegui arranjar melhor). A senhora deu-me batatas suficientes para fazer um jantar para mais de 10 pessoas. 

Voltei para casa, nada tranquila, porque, na verdade aquela imagem tinha um erro muito grande. Tranquilizei primeiro o meu irmão e fui para o meu quarto, deitei-me na cama e fiquei a olhar para o teto. 

Afinal, aqueles gritos tinham mesmo água no bico. O problema é que não tinham nada a ver com o que eu pensava. Aqueles gritos eram, sim, da mulher, mas não de dor ou de sofrimento, de mágoa ou de terror; eram gritos de uma mulher que maltratava os filhos e o próprio marido. Passaram-me pela mente todos os relatos da televisão, mas, neste caso, era algo muito pouco comum: uma mulher que pratica violência doméstica e não ao contrário. Sei que nós, mulheres, sofremos muito mais do que os homens relativamente à violência doméstica; há estatísticas que o comprovam, mas este caso era mais uma exceção.

Quando a minha mãe chegou a casa, depois de muito pensar, decidi contar-lhe, mas acabei por me arrepender. Talvez tivesse visto mal, talvez as marcas que vi nos filhos e no marido fossem impressão minha. Disse-lhe que não devíamos fazer nada e que devíamos esperar para ver se acontecia de novo. A minha mãe discordou e fez um discurso que me fez perceber que, se esperássemos por um amanhã, talvez ele nunca chegasse para aquela família. É por não haver denúncias da maior parte dos vizinhos ou conhecidos que as mortes têm aumentado bastante em Portugal. 

Por isso, eu e a minha mãe enchemo-nos de coragem e denunciámos o caso.

Tenho a certeza de que vou saber novidades sobre essa família, mas só espero que a minha denúncia os ajude. Só espero que aquelas crianças e aquele pai possam sorrir verdadeiramente e possam ser livres, porque todos merecemos ser felizes. 

Carolina Figueiras


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