Hoje acordei cansada, como todos os dias da minha vida desde que trabalho na fábrica de sapatos da zona. Já dei vinte anos à casa, mas, a cada dia que passa, sinto-me mais revoltada com a situação.
Levantei-me às seis da manhã, tomei o meu banho matinal, vesti-me calmamente e fui para a cozinha preparar o meu pequeno-almoço. Depois, tirei o almoço do frigorífico e coloquei-o na lancheira, peguei nas chaves de casa e do carro e parti para os quinze minutos de estrada que me separam do meu local de trabalho. O dia mal tinha começado e já estava cansada, cansada da vida. No caminho, preparo-me mentalmente para as oito horas de trabalho que se vão seguir com pequenas pausas para comer, porque o que importa é produtividade, ou o meu fim será ir para “o olho da rua”. Ou produzo, ou deixo de ter comida para alimentar os meus filhos no final de cada mês.
Porque, na verdade, o que importa não são os diretos humanos, mas sim o
bem da fábrica; porque o que importa não são as pessoas, mas sim o dinheiro que
se adquire; porque o que importa são os sapatos e não quem os produz.
E com estes pensamentos, fico triste, sinto-me só e desamparada, mas
sigo caminho, porque assim tem de ser. Chego à fábrica e saiu do carro. Faltam
dez minutos para entrar no meu turno, ainda tenho tempo de vestir o uniforme e
descansar um pouco. Por fim, respiro fundo e entro, não há tempo a perder,
agora é “a todo o vapor”.
Sento-me na minha cadeira, a cadeira que me
acompanhou durante os longos vinte anos, e começo a trabalhar. Olho para o lado
direito e o Manuel também já começou o trabalho; olho para o lado esquerdo e o
José acabou de se sentar e começa a organizar a sua mesa. Os três fazemos
exatamente, e, repito, exatamente o mesmo na fábrica. Se neste momento olhar
para os lados, os meus colegas repetem vezes sem conta o mesmo processo que eu.
No entanto, quando olho para as nossas contas bancárias, no final do mês, o salário
não é o mesmo. Porquê? O trabalho é o mesmo, o posto de trabalho
também, o nível de produção é consideravelmente o mesmo.
Então que mundo é
este? Que justiça é esta?
O problema prende-se com o facto de nem sequer ser possível reclamar, falar com os chefes ou analisar o caso. Não é possível, pois aqui nós somos apenas “números”. É para trabalhar e “ponto final”. Não temos direito a pensar ou sequer a “abrir a boca”; isso não é um direito.
Limito-me a continuar a minha atividade laboral até ao final das oito
horas de trabalho. No entanto, este dia está prestes a mudar a minha vida.
Chego ao balneário das mulheres, onde todas entramos “mudas e saímos caladas” e
ouço muito burburinhos. As mulheres desta fábrica vão unir-se e tomar uma atitude. Finalmente, uma boa notícia. O dia deixou rapidamente de ser cansativo, monótono e triste; deixou de ser um simples dia “normal” de trabalho.
Será que
vamos triunfar? Não sei, mas pela primeira vez em vinte anos, unimo-nos e vamos
lutar. Não sei que futuro esperar, mas será certamente um futuro muito mais
feliz. Este será um dia relembrado, e várias histórias serão ditas e contadas
sobre este dia em que as mulheres da fábrica de sapatos, de uma localidade
qualquer, deixaram de ser anónimas e passaram a ser a TAL…, que servirá de exemplo para muitas outras.
Carolina Figueiras

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