13 de fevereiro de 2018

Um dia “normal” no trabalho

Hoje acordei cansada, como todos os dias da minha vida desde que trabalho na fábrica de sapatos da zona. Já dei vinte anos à casa, mas, a cada dia que passa, sinto-me mais revoltada com a situação.

Levantei-me às seis da manhã, tomei o meu banho matinal, vesti-me calmamente e fui para a cozinha preparar o meu pequeno-almoço. Depois, tirei o almoço do frigorífico e coloquei-o na lancheira, peguei nas chaves de casa e do carro e parti para os quinze minutos de estrada que me separam do meu local de trabalho. O dia mal tinha começado e já estava cansada, cansada da vida. No caminho, preparo-me mentalmente para as oito horas de trabalho que se vão seguir com pequenas pausas para comer, porque o que importa é produtividade, ou o meu fim será ir para “o olho da rua”. Ou produzo, ou deixo de ter comida para alimentar os meus filhos no final de cada mês.

Porque, na verdade, o que importa não são os diretos humanos, mas sim o bem da fábrica; porque o que importa não são as pessoas, mas sim o dinheiro que se adquire; porque o que importa são os sapatos e não quem os produz.

E com estes pensamentos, fico triste, sinto-me só e desamparada, mas sigo caminho, porque assim tem de ser. Chego à fábrica e saiu do carro. Faltam dez minutos para entrar no meu turno, ainda tenho tempo de vestir o uniforme e descansar um pouco. Por fim, respiro fundo e entro, não há tempo a perder, agora é “a todo o vapor”. 

Sento-me na minha cadeira, a cadeira que me acompanhou durante os longos vinte anos, e começo a trabalhar. Olho para o lado direito e o Manuel também já começou o trabalho; olho para o lado esquerdo e o José acabou de se sentar e começa a organizar a sua mesa. Os três fazemos exatamente, e, repito, exatamente o mesmo na fábrica. Se neste momento olhar para os lados, os meus colegas repetem vezes sem conta o mesmo processo que eu. No entanto, quando olho para as nossas contas bancárias, no final do mês, o salário não é o mesmo. Porquê? O trabalho é o mesmo, o posto de trabalho também, o nível de produção é consideravelmente o mesmo. 

Então que mundo é este? Que justiça é esta? 

O problema prende-se com o facto de nem sequer ser possível reclamar, falar com os chefes ou analisar o caso. Não é possível, pois aqui nós somos apenas “números”. É para trabalhar e “ponto final”. Não temos direito a pensar ou sequer a “abrir a boca”; isso não é um direito.

Limito-me a continuar a minha atividade laboral até ao final das oito horas de trabalho. No entanto, este dia está prestes a mudar a minha vida. Chego ao balneário das mulheres, onde todas entramos “mudas e saímos caladas” e ouço muito burburinhos. As mulheres desta fábrica vão unir-se e tomar uma atitude. Finalmente, uma boa notícia. O dia deixou rapidamente de ser cansativo, monótono e triste; deixou de ser um simples dia “normal” de trabalho.

Será que vamos triunfar? Não sei, mas pela primeira vez em vinte anos, unimo-nos e vamos lutar. Não sei que futuro esperar, mas será certamente um futuro muito mais feliz. Este será um dia relembrado, e várias histórias serão ditas e contadas sobre este dia em que as mulheres da fábrica de sapatos, de uma localidade qualquer, deixaram de ser anónimas e passaram a ser a TAL…, que servirá de exemplo para muitas outras.


Carolina Figueiras

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